Publicado em 05/09/19 15:50

Desigualdade de gênero e a violência sexual contra meninas e mulheres

Como a desigualdade de gênero cria uma cultura de violência sexual contra meninas e mulheres e como podemos mudar essa realidade

Segundo dados do Ministério da Saúde coletados entre 2011 e 2017, 85% do total de casos de violência sexual contra crianças e adolescentes vitimizaram o sexo feminino. Esse dado reflete, entre diversos fatores, uma cultura baseada na profunda desigualdade de gênero, no machismo e na objetificação dos corpos de mulheres desde os períodos da infância e adolescência.


O que é a desigualdade de gênero e como ela impacta meninas e mulheres

A desigualdade de gênero pode ser entendida, de forma simplista, como uma diferença profunda entre mulheres e homens na sociedade, onde a mulher é geralmente colocada em um lugar de inferioridade em relação ao homem. Essa distinção se reflete em diversos campos da vida: relacionamentos afetivos, acesso à educação e ensino superior, mercado de trabalho e, principalmente, nas estatísticas de violência doméstica, sexual e feminicídio (assassinato de mulheres motivado pelo gênero).


Sexualização e objetificação do corpo feminino

Entende-se como objetificação o ato de anular o emocional e o psicológico do ser humano, retirando-o da sua posição de sujeito, com seus próprios desejos e vontades e transformando-o em um objeto passivo. Aliada à objetificação, há a sexualização de meninas e mulheres: mais do que objetos, passam a ser tratadas como objetos sexuais, com a função de dar prazer sexual aos homens.


A campanha #PrimeiroAssédio, criada pela organização Think Olga, mostrou que a idade média do primeiro assédio sofrido por mulheres é de 9,7 anos – ainda enquanto crianças. Essa sexualização precoce do corpo feminino acaba por criar uma naturalização da violência sexual contra a mulher.


As estatísticas revelam que o sexo feminino (meninas) é o mais expressivo percentualmente quando se trata do número de vítimas de violência sexual contra crianças e adolescentes. O sexo feminino também representa a maioria das vítimas de violência doméstica que, em casos mais graves, pode resultar no feminicídio.


A forma mais grave da violência doméstica é o feminicídio, que passou a ser reconhecido legalmente com a Lei 13.104, de 2015. O feminicídio é enquadrado como qualquer homicídio cuja vítima seja mulher e o motivo do crime seja relacionado ao seu gênero, envolvendo violência doméstica e familiar OU discriminação à condição de mulher. O Atlas da Violência 2019, publicação realizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontou uma provável escalada do crime de feminicídio entre 2012 e 2017 – a pesquisa mostrou que a morte violenta intencional de mulheres no ambiente doméstico cresceu 17% em cinco anos, enquanto o assassinato de mulheres nas ruas diminuiu 3% no mesmo período.


Como contribuir para uma sociedade mais igualitária?

Para enfrentar essa realidade de violência contra a mulher e, consequentemente, violência sexual contra meninas, é fundamental criar ações efetivas de educação e sensibilização para toda a população sobre questões de gênero, quebrando estereótipos sexistas e rompendo com o movimento de culpabilização da vítima. É importante ensinar meninos e meninas, desde cedo, que mulheres e homens devem ter os mesmos direitos; exercer os mesmos espaços e papéis dentro da sociedade e, principalmente, ensinar a importância do consentimento e respeito em todas as relações.


Criada pela Plan International Brasil, a campanha #DesafioDaIgualdade promove uma discussão saudável e didática sobre igualdade de gênero, com o objetivo de questionar hábitos, mudar comportamentos e educar todas as crianças para praticar a igualdade. Conheça a campanha aqui.


Existem vários livros infanto-juvenis destinados a desconstruir, de maneira leve e didática, conceitos machistas e promover a igualdade entre os gêneros. A série Coisa de Menina’ e ‘Coisa de Menino’, da autora Pri Ferrari, aborda de maneira divertida a quebra de estereótipos de gênero e a liberdade de cada menino e menina escolher o que querem ser. Já o livro ‘Histórias de ninar para garotas rebeldes, escrito por Elena Favilli, traz 100 histórias sobre mulheres extraordinárias que deixaram sua marca no mundo e hoje servem de inspiração para meninas de diversas idades.


Outro material para trazer a discussão entre meninas e meninos é a série “Que Corpo é Esse?” do Projeto Crescer Sem Violência, realizado pelo Canal Futura em parceria com Childhood Brasil e UNICEF. Episódios como “É de menino ou menina?”, “Empoderamento feminino” e “Esteriótipos de gênero”, trazem boas discussões e reflexões sobre o tema.

 

Promover a importância da igualdade de gênero é essencial para a prevenção da violência sexual contra meninas e mulheres.